terça-feira, 12 de junho de 2012

Me pari hoje. Dois anos depois.

Sei que o assunto aqui é amamentação. Mas te garanto que tem tudo a ver.

Amanhã Marina faz dois anos de vida. Impressionante como esta data me marcou. Muito mais do que o primeiro ano.

Isso porque hoje realmente Marina nasceu. Há dois anos atrás eu tinha meu primeiro rompimento de bolsa. Um pequeno, que me mandou de volta para casa aflita, pois não conhecia nada sobre parto. Se quiser, leia mais sobre meu relato de parto cesariana clicando aqui.

Há alguns dias tenho revivido todas as sensações dos dias que antecederam o parto da Marina. Há dois anos tenho dificuldade em entender como tudo aconteceu. Hoje tudo foi esclarecido.

Então resolvi passar o dia lendo sobre casas de parto, relatos de parto. Fui fazendo a releitura do meu. Das minhas escolhas, das coisas que não pude escolher, daquilo que realmente eu queria e entendi, finalmente, que  fiz o que pude dentro do conhecimento que tive, mas não só isso, dentro do que minha cabeça permitia.

A Adriana Tanese Nogueira (Amigas do Parto) falava muito sobre isso nas minhas dúvidas sobre não ter dilatação. Entendia na teoria, mas na prática ainda não tinha resolvido esta questão. Entendi hoje que Eu não estava preparada para parir. Eu não estava preparada para um filho. Eu era outra pessoa, muito diferente da que sou hoje.

Nesses dois anos, muita coisa mudou, fui transformada pela Marina, pela maternidade. Pelos cursos que fiz. De aleitamento, de educadora perinatal, de doula pós-parto e pelas mais de 100 mães que já atendi e pelas mais de 60.000 visitas ao meu blog. Depois de criar um site. Depois de lutar com unhas e dentes pelo direito de amamentar e ser amamentado. Depois de centenas de litros de leite que produzi. Depois de centenas de fios brancos que apareceram. Depois de muitas conversas e ouvidos em grupos de mães, como o Maternamente. Em grupos de apoio ao parto.

Hoje tudo se esclareceu. E eu fui ficando mais leve.

Ao longo do dia, fui ao banheiro muitas vezes. Não estava doente, só sentia uma vontade louca de ir ao banheiro. Quase não fiz nada hoje no trabalho. Estava em outra dimensão, perdida em meus pensamentos, envolvida com algo que se passava no meu cérebro, como se estivesse entorpecida. Peguei Marina na escola e fomos para casa. Não fiz janta, fiz um bolo. Não faço bolos. Não sei fazer. Deu certo.

Tomei um banho como há muito tempo não tomava, me sentia fortalecida, embora muito cansada com tantos pensamentos.

Marina, hoje mais criança do que bebê, brincou comigo e eu senti uma sensação de dever cumprido com ela. Minha gestação estava chegando ao fim. Gestei Marina por 38 semanas e 2 anos. A amamentação me permitiu gestar Marina até que estivéssemos prontas. Marina hoje quase não mamou, brincou, brincou, me fez carinhos, beijos.

Uma dor lombar me pegou de jeito e eu resolvi não me medicar. Fiz exercícios, alonguei, fui ao banheiro, agachei, levantei, rolei com Marina no chão.

Até que, na hora de dormir, senti que eu deveria amamentar Marina como deveríamos estar há dois anos atrás. Sem roupa. Peguei um cobertor e Marina se aninhou como nunca havia se aninhado antes, procurou o peito como nunca havia procurado antes e mamou, mamou, mamou e dormiu, suada, como há muito não suava e eu senti um alivio na região lombar e tirei o peso da minha pélvis. Eu me sentia mais leve.

Me pari hoje. Hoje eu me preparei para o parto natural de Marina, sem intervenções, sozinha, sem medicamentos. Marina  hoje mamou na primeira hora do parto. O melhor leite que ela podia ter recebido em sua primeira hora de vida.

Não ter dilatação é o mesmo que não ter leite. Não existe. O leite não sai quando não estamos abertas à ocitocina, o mesmo ocorre com nosso útero.  O bebê só sai se estivermos preparadas, abertas. Não existem culpados. Eu não estava pronta.

Gostaria de realmente ter parido Marina hoje. Depois de amamentá-la por 2 anos. Mas agora tenho certeza de que Marina é do mundo. Não é minha. Me foi emprestada para que eu pudesse ser transformada. A transformação não é fácil e eu me transformei pela amamentação.


Fabiana Cainé Alves da Graça, nascida em 28 de outubro de 1976. Mãe da Marina que nasceu em 06 de junho de 2010. Mulher que se pariu e renasceu em 05 de junho de 2012.

5 comentários:

  1. Amiga que lindo!Olha, eu tava pensando esses dias no parto do Theo tb, meu parto foi normal, sem anestesia, mas com ocitocina sintética, o que creio que fez uma dor que era para ter sido natural virar um dor horrorosa!Como queria poder voltar no tempo e fazer tudo de novo, ao meu jeito.
    Achei lindo o que escreveu, em cada linha sua deu para sentir o sentimento grandioso de renascimento.
    Bjks!

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  2. Fabi, nao consegui comentar seu ultimo post! :(

    Nooossa...Fiquei toda arrepiada ao ler seu relato. Muito lindo, sincero, sem medo de mostrar seus sentimentos...bonito meeeesmo Fabi. Então a cena que vc descreveu dando de mamar para a Marina foi de uma pureza tão grande, e ao mesmo tempo tão poderoso.
    Que momento iluminado que você teve.

    Um beijo grande!

    Fernanda Balbi

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  3. muito, muito emocionante
    Amo seus textos e seu blog
    e a sua relação com sua filha, é lindo, que Deus conserve assim!!!

    beijos

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  4. Muito lindo seu depoimento, emocionante!

    Beijos, Renata.
    www.betapositivo.com

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  5. Minha filhotinha Fabinha.
    Você, mãe da Marina continua sendo minha Fabinha. Minha? Hoje já não sei. Ti quis, esperei, ti pari, não de forma natural mas, pari.Amamentei, aconcheguei, cheirei. Te tenho, ainda próxima a mim. Ainda dou risadas com você, choro, torço, olho, ti sinto.Fabiana hoje é mulher e mãe, mas nossa ligação é infinita transcende este tempo. Amor incondicional, será isto? Não procuro respostas, simplesmente te amo. Beijos Mamãe

    17 de julho de 2012 04:42

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