sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sim, eu sei.


Praia da Enseada, Ubatuba, SP.
Sim, eu sei que a amamentação é o continuum da gestação.
Mas... e o continuum da amamentação?

Quando se amamenta prolongadamente, os bebês se saciam das mais profundas necessidades físicas e emocionais, tornando-se mais independentes e seguros.

Quando lemos isso nos benefícios da amamentação ficamos felizes por que nesse mundo louco em que vivemos, ser independente e seguro de sí é uma das condições para a sobrevivência. Porém, quando se amamenta prolongadamente, nós mães, mudamos nossa vida em função de amamentar. E deixamos muitas coisas de lado. Muitas coisas que preenchiam nossas vidas antes do bebê nascer. Preenchemos nossa vida com leite materno. Muitas vezes cansamos, nos esgotamos, sentimos saudades do passado. Mas quando temos esse tempo de volta, muitas vezes não sabemos o que fazer com ele. Eu já havia esgotado a necessidade de amamentar Marina porém, esqueci de que minha vida não seria mais a mesma. A sensação de inutilidade da nossa parte vêm aos poucos. Devagarzinho.

Um tetê por um carinho. Falei isso metade do blog. E não fiz quando tudo acabou. Deixei de amamentar ao mesmo tempo em que engravidei e abortei. Foi muita coisa junto. Não soube lidar. Marina também não.

A morte do meu avô dois dias depois do início do meu aborto também foi muito dura. E a primeira parada cardíaca dele foi minutos depois de eu vê-lo e minutos antes de eu sentir as primeiras cólicas. A minha DPP seria para o aniversário dele. Foi uma semana muito difícil para mim e para minha família.

Talvez tenhamos criado uma distância pela dor da perda. E eu me perdi. Achei que não era mais útil nem à Marina. O que eu tinha para dar à ela? Não pude fazer nada pela gestação perdida e não tinha mais leite. Tudo se acabou em 40 dias. E eu acabei junto.

Tonturas, quedas de pressão, tristeza, me via de um jeito diferente no espelho, Larguei os cremes, os cuidados comigo e fui deixando. Me deixando. Os cabelos brancos, as roupas. A tensão foi subindo pela minha coluna até travar meus maxilares. 30 dias de muitas dores, cansaço, remédios, me dopei de medicamentos.
Marina, 3 anos e 6 meses.

A perda da filha da minha prima querida às 36 semanas de gestação nos afundou mais um pouco. E eu fui bem lá no fundo. Passei a perder o sono e a não controlar mais a taquicardia e a ansiedade. Me afastei de tudo. Da costura, do blog, do site, da militância, dos atendimentos, dos meus grupos. Parei tudo.

De todas as ajudas que busquei, as que me trouxeram mais alívio foram meus medicamentos fitoterápicos, massagens, retomar minha fé e uma viagem à praia. E o texto anterior, que foi o início desse desabafo. E agora estou eu aqui, em recuperação. Um dia de cada vez. Ainda precisando de ajuda. E aceitando a ajuda. Mas, melhor.

A resposta à minha pergunta... o continuum da amamentação é o amor. O carinho. Um tetê por um carinho até que só restem o carinho. O continuum da amamentação é a MATERNAGEM.

E eu vou resgatá-la. Vou me resgatar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sim, eu sinto falta.



Sim, eu sinto falta de escrever aqui.
Sim, eu sinto falta de amamentar.
Sim, eu sinto por ter perdido uma gestação.
Sim, eu sinto pela perda da Carolina, da Vivian.
Sim, eu sinto falta de compartilhar experiências.
Sim, eu sinto falta de não ter mais sobre o que falar de amamentação.
Sim, eu sinto falta de falar da Marina.
Sim, eu sinto falta da ocitocina.
Sim, eu sinto falta do cansaço de amamentar no meio da noite.
Sim, eu sinto falta da fome que eu sentia por amamentar.
Sim, eu sinto falta do meu soutien 42. Agora 40.
Sim, eu sinto falta das minhas olheiras. Agora elas são de um cansaço real.
Sim, eu sou humana.
Sim, eu sou mulher.
Sim, eu sou mãe.
Sim, não está sendo fácil.
Mas sim, eu estou superando.
Devagar.
E com calma.
Com lágrimas.
Com esperança.
Com fé.
Sem pressa.
Um dia de cada vez.


Para minha mãe e para a amiga Maria Emiliana que conseguiram fazer com que essas poucas palavras saíssem.

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