quarta-feira, 8 de março de 2017

Carta


Hoje eu quero dedicar aqui, nesse espaço que durante tanto tempo foi para descrever e dividir o meu mundo de amamentar minha primeira filha, Marina, aos meus filhos, irmãos da Marina, que não puderam nascer.

Em 2013 relatei aqui que estava grávida, logo após o desmame natural da Marina. No entanto, dois meses depois, vimos tudo se acabar em contrações... Em 2014 foram mais duas gestações e, em 2015 mais uma.

Hoje, 3 anos e meio depois, não sou mais forte, parafraseando minha prima Vivian que não pôde ter Carol em seus braços às 38 semanas de gestação, sou diferente.

Ainda dói. Ainda tenho dó. Ainda me salta o coração, ainda me treme as pernas. E por isso, escrever é parte da minha cura.

Não sei se tenho os nomes de todos... Helenas e Henriques... não sei. Mas hoje quero me despedir. Não deixo de amá-los porque estou me despedindo. Mas gostaria, em nome do amor que criamos naquele tempo tão curtinho, de pedir a ajuda de vocês para poder continuar minha missão aqui. Sabe, a vida aqui não é fácil e acho que vocês sabem disso, acho que vocês puderam sentir isso e, sua irmã Marina precisa muito de mim e do seu pai aqui para que ela possa seguir a jornada dela. Ela também sente muito a ausência de vocês. O pai de vocês é durão por fora mas sentiu muito também a partida de cada um de vocês. Ele não podia fazer nada também. Ele fez tudo, tudo com muito amor e sentiu cada um de vocês.

Assim como foi com sua irmã mais velha, a chegada aqui em  meu ventre de cada um de vocês foi comemorada como um prêmio. Fomos premiados com 4 vidas que viveram em mim, cada uma pelo tempo que precisou. Mas mamãe às vezes ainda não entende porque isso foi acontecer. E cada vez que eu penso nisso, choro muito. Conversamos muito enquanto vocês ainda residiam aqui. Mas depois, como mamãe é humana e os humanos são muito complicados, eu maldizia cada acontecimento. E isso me machucava ainda mais e acho que eu feria vocês também. Nenhum de vocês tem culpa. Infelizmente o corpo humano tem suas falhas e suas sequelas. E envelhece também. Fomos vítimas disso. Não há quem culpar.

Jamais me esquecerei de vocês. Cada positivo, cada borboleta que batia em meu ventre e cada primeira contração. Eu pari vocês. Sozinha. Eu pude viver isso com cada um. Muitas vezes imagino como seria meu dia aqui com vocês. E às vezes sofro com isso. Mas agora, meus Henriques e minha Helenas, preciso seguir meu caminho. Marina precisa muito de mim. Cada um de vocês 4 me teve por inteira nos melhores e piores momentos. Marina também precisa. Seu pai também precisa. Eu preciso.

Marina diz à todos que tem 4 irmãos e eu concordo. Eu e seu pai temos 5 filhos. Uma aqui conosco e 4 Henriques e ou Helenas que estão nos aguardando quando nosso caminho aqui terminar. Marina sempre pergunta se nos veremos e eu tenho certeza de que teremos essa oportunidade.

Não impedirei pelos meios cirúrgicos ou químicos que não venham, mas também não tentaremos mais. Sigam seus caminhos, não tenham medo. Mamãe e papai estarão aqui, lembrando de vocês com amor e cuidando da Marina. O laço que nos uniu nunca vai nos separar.

Com muito amor

Mamãe.

2 comentários:

  1. Fabi, fiquei muito emocionada com o seu texto, já não passava aqui faz tempo...Há 6 anos atrás este blog era meu porto seguro, me ajudava muito com a amamentação da minha filha, a alergia dela, minhas dúvidas, enfim tudo.
    Só tinha conhecimento da vossa primeira perda, sinto muito por tudo o que se passou. Espero que esta Carta ajude você a estancar a dor e a viver em paz.
    Desejo muita felicidade à vossa família e os meus parabéns por aguentar da melhor maneira que pôde tanto sofrimento.
    Um abraço.
    Fernanda

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    Respostas
    1. Fernanda!!!!!! Que gostoso poder ler suas palavras! E fico muito muito feliz em poder ter ajudado de alguma forma a amamentação da sua menina. ESpero que tenham aproveitado muito esses momentos. Sim, a gente supera. Um dia de cada vez. Grande beijo no coração. Fabi

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